Saúde

Lúpus eritematoso sistémico: Doença silenciosa confundida com outras enfermidades

armandomaquengo
Ago 31, 2022

Muitos pacientes com o problema são diagnosticados, erradamente, com outras doenças, por apresentarem sintomas de questões do fórum gástrico, nefrológico, dermatológico e ortopédico.

Aos 21 anos de idade, e como tantos outros jovens que gostam de números, Anaday Martinho sonhava ser engenheira. Por isso, matriculou-se no curso de Engenharia de Petróleos, na Universidade Jean Piaget de Angola.

A par dos estudos, a jovem Anaday, que prima muito pelo estilo natural, decidiu frequentar um ginásio, para manter a boa forma física e procurar o corpo perfeito.

Foi neste período que ela viu os seus sonhos a mudarem de direcção de forma brusca. Passou a sentir muitas dores nas articulações e inflamação nos ossos, situação que nem a permitiam encontrar uma posição para dormir.

No princípio, as dores eram associadas aos treinos, o que era considerado natural para quem não estava habituada àquela rotina de exercícios. Mas, nos dias subsequentes, essas queixas passaram a ser sentidas na cabeça, acompanhadas de febres altas.

Foi, a partir daqui, que a levaram a uma clínica privada de Luanda, onde, depois de alguns exames, teve de ser internada. Os médicos diagnosticaram paludismo, já num estado muito avançado.

O tempo passava e, apesar das consultas, Anaday Martinho não melhorava. Por esta razão, outros exames foram feitos e os médicos concluíram que a jovem tinha tuberculose óssea. Por isso, tinha de começar a fazer um outro tratamento.

Esse tratamento, que era muito mais forte, tinha de ser feito por via intravenosa a fim de permitir um combate mais rápido da infecção.

Mesmo assim, a medicação não dava resultados e a situação piorou, ao ponto de Anaday cair em coma, durante vários dias. “Nessa altura, a minha família, apesar da clínica em que estava hospitalizada não ter aceite bem, assinou um termo de responsabilidade, fretou um avião hospitalar e me levou, sem despertar, à África do Sul”.

Até se chegar ao verdadeiro diagnóstico, a jovem ficou, em coma, durante 46 dias. Os exames feitos na África do Sul ditaram que Anaday Martinho sofria de lúpus eritematoso sistémico (LES ou simplesmente lúpus).

O lúpus é uma doença auto-imune (quando o sistema imunológico do corpo ataca seus próprios tecidos e células ao invés de combater os organismos estranhos) capaz de afectar diversos sistemas do organismo, como articulações, pele, rins, cérebro, coração, pulmões e demais órgãos.

Ao saber do diagnóstico, Anaday Martinho sentiu-se perdida, porque não sabia do que se tratava nem como tinha apanhado a doença, que lhe impossibilitaria de realizar o seu sonho da Engenharia de Petróleos.

Ainda na África do Sul e, em convalescença, os médicos explicaram a Anaday tudo sobre a doença e começaram a administrar a medicação, para controlar a lúpus. “Desde essa altura, até acertarem o melhor medicamento, já tiveram de trocar, pelo menos umas sete vezes, durante os 19 anos com a doença, os fármacos”, disse.

Na época em que lhe foi diagnosticada o lúpus, na África do Sul, existiam poucos ou quase nenhum especialista em Reumatologia em Angola. Mas, como a jovem estava numa das fases mais críticas da doença, precisava de ser regular e devidamente seguida pelo referido especialista, que cuida de pacientes apoquentados com a enfermidade.

“Por isso, a minha família optou em deixar-me viver na África do Sul, a fim de continuar a ser assistida com todos os cuidados que se exigem”, explicou a paciente, de 39 anos, 19 dos quais a lutar contra o lúpus.

Hoje, por conta da doença, foi impedida de prosseguir os estudos em Engenharia de Petróleos. “Tive de parar por quatro anos, para recuperar a saúde, e depois, troquei o curso e licenciei-me em Administração de Negócios, na África do Sul”.

Em função das crises, Anaday evita trabalhos que a criem muito stress. Por isso, quando vem a Angola, aproveita o tempo para trabalhar num colégio, como coordenadora das Actividades Infantis, uma paixão actual, apesar de não ser a área de formação.

Anaday é a única na família com a doença, segundo disse. “Tenho recebido todo o apoio que necessito para conviver com a doença, que tem fases de crises lúpicas quando são descorados alguns cuidados”, salientou.

JA