Cultura

Quatro artistas angolanos participam no Festival da Consciência Negra

joaquimjose
Nov 17, 2022

Os artistas angolanos Dog Murras, Celma Pontes, João Canda e Paulo Chavonga vão participar na 2.ª edição do Festival da Consciência Negra, na Glória, Rio de Janeiro, que acontece amanhã e domingo, no Teatro Prudential, avançou hoje Jornal de Angola.

Realizado em comemoração ao dia da Consciência Negra no Brasil, o 20 de Novembro, a 2ª edição do festival tem como pilares quebrar barreiras e construir pontes, fortalecer laços entre aquele país da América do Sul e o continente africano. Com o patrocínio da Bayer e apoio da Europ Assistance, o evento conta com a curadoria do Teatro Prudential / Instituto Evoé por meio da curadora Maria Siman.

Devido ao sucesso da primeira edição, realizada em 2021, neste ano o festival ganhou mais espaço e uma programação ainda mais abrangente, com três dias de actividades divididas entre literatura africana, música, teatro, stand de venda de produtos confeccionados por artistas artesãos negros. Participam, igualmente, nesta edição, para além dos angolanos, artistas e intelectuais negros do Brasil e África, como Sunny (Nigéria), o cantor e músico Mû Mbana (Guiné-Bissau), e a cantora brasileira Sandra Sá, que também são atracção do primeiro dia do festival.

Celebrado a 20 de Novembro, o Dia da Consciência Negra é uma data de reflexão sobre a luta dos negros contra a opressão e as implicações do racismo no Brasil de hoje. Mas, para entender nosso presente e construirmos um futuro com oportunidades iguais, é preciso conhecer o passado. E o passado do povo negro, claro, está na África.

“Buscamos trazer ao público a força e a extraordinária potência da arte e da cultura produzidos pela comunidade afrodescendente brasileira e por artistas e pensadores africanos. Uma programação diversa, contemplando uma pluralidade artística em três dias de intensas actividades ocupando todos os espaços do Teatro Prudential”, diz Maria Siman.

Com actividades para todas as idades, o 2º Festival da Consciência Negra apresentará a peça infantil “O Pequeno Herói Preto”, idealizada e encenada pelo actor Júnior Dantas sob a direcção de Cristina Moura e Luisa Loroza. Também no teatro, o público adulto terá “Negra Palavra – Solano Trindade”, encenado por 10 actores negros com direcção de Renato Farias.

Nos ecrãs, o filme “Mutu Mbi”, direcção de Levis Albano, integra a programação, que ainda contará com palestras, seminários, feira de livros com sessão de autógrafos, além de degustação de comidas típicas da riquíssima e variada culinária africana.

Embora o Dia da Consciência Negra seja fundamental para evidenciar as desigualdades e violência contra a população negra na sociedade brasileira, a Ocupação LiterÁfrica no festival visa realçar o papel dos escritores e artistas africanos nessa data não só de reflexão sobre o racismo, mas também fundamental para a elevação da auto-estima do povo brasileiro por meios de acções artísticas, culturais e educacionais do povo que legou ao Brasil uma cultura diversa e rica.

“A Ocupação LiterÁfrica nasceu da necessidade de apresentar a verdadeira história africana, uma África que não é lida e nem é contada no Brasil e, quando é contada, é sempre pelo olhar eurocêntrico, uma visão distorcida da realidade. Participar deste projecto pela primeira vez no Rio de Janeiro é muito gratificante e de extrema responsabilidade. Nós, africanos, temos um papel a cumprir nesta luta”, conclui o responsável pela Ocupação, o escritor João Canda.

“Como uma empresa de origem alemã de ciências da vida pode ter influenciado a percepção de uma mulher negra sobre ela mesma? Como mulher negra e advogada tributarista, adoro responder essa pergunta para mim mesma. Foi graças às rodas de conversa que o BayAfro promove (chamamos de AfroTalks), que eu descobri que a Catedral da Sé foi projectada por uma pessoa negra. Foi nessas conversas que eu descobri diversos cientistas negros. Descobri a comida, música e cultura da África. E isso trouxe-me empoderamento, segurança e mais auto-estima. Conhecer nossa cultura e nossa história é chave para destravar nossa força e movimentar as estruturas desse país. Só tenho a agradecer a Bayer por incentivar iniciativas como essa do Instituto Evoé, compreendendo o presente e lutando pelo futuro da sociedade”, finaliza Verónica Magalhães, advogada tributarista na Bayer Brasil.

Instituto LiterÁfrica é parceiro do evento

Sob iniciativa do escritor, produtor cultural, palestrante e consultor editorial, João Canda, angolano que chegou no Brasil em 2014 como refugiado, o Instituto LiterÁfrica foi criado há sete anos e, desde a sua fundação vem contribuindo na promoção da cultura africana no Brasil por meio da literatura e de outras manifestações culturais – uma necessidade que o Brasil e o mundo vêm sentindo.

A instituição vem promovendo programas e projectos de capacitação para professores; palestras em escolas públicas e privadas; organização e participação em feiras literárias; conferências, edição e lançamentos de livros de escritores africanos; e diálogos sobre questões raciais e valorização da cultura negra, incentivo à leitura de obras de literatura africana e conhecimento de suas diversas culturas – dança, música, cinema e teatro – sob um olhar filosófico real, educacional, artístico e cultural africano.

A primeira edição das festividades

Realizada em 2021, a primeira edição do projecto teve apenas um dia de programação no Teatro Prudential, contando com a participação de nomes como Jessica Ellen, Rodrigo França, Grupo Afro Reggae e Verónica Bonfim. Durante todo o dia, a primeira edição do festival deu visibilidade a pensamentos de artistas e intelectuais apresentando o melhor da arte e da cultura criadas, pensadas e produzidas por negros. Dentre as actividades, roda de conversa, apresentações de três grupos de dança de ritmos africanos, show da cantora e actriz Jessica Ellen e a peça “O Encontro de Malcom X e Martin Luther King”, com Rodrigo França.

Programação inclui literatura, teatro e música

Com personalidade marcante e timbre de voz singular, Sandra Sá, com espectáculo agendado para amanhã, às 20h30, mistura ritmos – MPB, soul, samba e funk – num show em que canta clássicos do seu repertório, como “Olhos coloridos”, “Retratos e canções”, “Vale tudo”, “Joga fora” e “Bye bye tristeza”.

O Ocupação Literáfrica previsto para os três de festival, com venda de ingresso, destacam-se o “Show Mû Mbana”, com participação especial do compositor e intérprete angolano Dog Murras e o Literatura em África. Participam do Ocupação LiterÁfrica artistas e escritores africanos como João Canda (Angola), Paulo Chavonga (Angola), Sunny (Nigéria), Mû Mbana (Guiné-Bissau). As participações estendem-se por outros escritores que estarão presentes por meio das suas obras na Feira de Literatura Africana e Afro-brasileira, como Dina Salústio (Cabo Verde), Paulina Tchiziane (Moçambique), Tânia Tomé (Moçambique), R. S. Asobo (Camarões), Edilson G. Ferreira (Guiné-Bussau), Gilbert  Kpossoubo (Benin), Moustafa Assem (Egipto), Celma Pontes (Angola), Dog Murras (Angola),  e tantos outros nomes e “obras que falam de uma África gloriosa, da nossa cultura, das nossas tradições de forma orgulhosa”, revela João Canda.

O espectáculo infanto-juvenil intitulado “O Pequeno Herói Preto”, a ser exibido no domingo, às 16h00, narra a aventura de Super Nagô, um youtuber de 10 anos que descobre os seus poderes por meio da sua família. O personagem é interpretado por Junior Dantas, que assina o texto com Cristina Moura, responsável também pela direcção ao lado de Luiza Loroza. Na trama, Super Nagô usa os conhecimentos dos seus antepassados e da natureza para transformar positivamente a vida das pessoas ao seu redor, apresentando a história, a cultura e a ancestralidade negras. As músicas originais foram compostas por Muato, responsável também pelas direcção e produção musicais.

Já o espectáculo “Negra Palavra – Solano Trindade”, a ser apresentada também no domingo, às 20h00, retrata a vida e obra do poeta pernambucano Solano Trindade (1908/1974). Solano é poesia, é corpo negro, é militância, é potência e é amor. Na contramão dos estereótipos criados para objectificar e discriminar os homens negros, o espectáculo recupera a trajectória do poeta trazendo para a cena as suas múltiplas vivências.