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Relatório do UNFPA revela que metade das 121 milhões de gravidezes por ano “uma crise global” são indesejadas

armandomaquengo
Nov 09, 2022

O relatório Estado Mundial da População 2022, divulgado pelo UNFPA, Fundo das Nações Unidas para a População, agência da ONU para a saúde sexual e reprodutiva, explica que, para as mulheres e raparigas afectadas, a escolha mais transformadora da vida – engravidar ou não – não é uma escolha deliberada, soube WI-AO.


Por: Armando Maquengo

O evento de apresentação do relatório, teve lugar na maternidade Augusto Ngangula em Luanda, no dia 03 de novembro corrente, com a participação de membros do Governo de Angola, Organizações da Sociedade Civil, Agências das Nações Unidas, Embaixadas entre outras instituições.

O relatório pioneiro, “Vendo o Invisível: Em defesa da acção na negligenciada crise da gravidez não intencional”, adverte que esta crise dos direitos humanos tem consequências profundas para as sociedades, mulheres e raparigas e para a saúde global. Mais de 60% das gravidezes não intencionais terminam em aborto e estima-se que, 45% de todos os abortos são inseguros, causando 5-13% de todas as mortes maternas, tendo assim um grande impacto na capacidade do mundo para atingir os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável.

Na ocasião, a Directora Executiva do UNFPA, Natália Kanem, disse que o número impressionante de gravidezes não intencionais representa um fracasso global na defesa dos direitos humanos básicos das mulheres e raparigas, acrescentando que “para as mulheres afectadas, a escolha reprodutiva mais transformadora da vida – engravidar ou não – não é, de facto, uma escolha deliberada. Ao colocar o poder de tomar esta decisão mais fundamental nas mãos de mulheres e raparigas, as sociedades podem assegurar que a maternidade é uma aspiração e não uma inevitabilidade”.

Como principais conclusões, foi apontada a desigualdade de género e desenvolvimento estagnado que, impulsionam altas taxas de gravidezes indesejadas. Globalmente, estima-se que 257 milhões de mulheres que querem evitar a gravidez não estão a utilizar métodos contraceptivos seguros e modernos, e onde existem dados disponíveis, quase um quarto de todas as mulheres não são capazes de dizer não ao sexo.

Entretanto, o relatório diz que uma série de outros factores-chave também contribuem para gravidezes não intencionais, incluindo falta de informação e de cuidados de saúde sexual e reprodutiva, opções contraceptivas que não se adequam ao corpo das mulheres ou às circunstâncias, normas nocivas e estigma em torno das mulheres que controlam a sua própria fecundidade e o seu corpo, violência sexual e reprodutiva coerciva, atitudes de juízo de valor ou vergonha nos serviços de saúde, além da pobreza e desenvolvimento económico estagnados.

Em relação à desigualdade de género o relatório refere que todos estes factores reflectem a pressão que as sociedades exercem sobre as mulheres e raparigas para se tornarem mães. “Uma gravidez não intencional pode acontecer por falta de autonomia que a sociedade permite ou ao fraco valor atribuído à vida das mulheres”.

Quando as crises se instalam, as gravidezes não intencionais aumentam

                                                                                                  Relatório UNFPA

As crises e os conflitos segundo conclusões, do UNFPA, roubam às mulheres a sua autonomia a todos os níveis e aumentam drasticamente o risco de gravidez involuntária nos momentos mais ameaçadores. “As mulheres perdem muitas vezes o acesso aos contraceptivos e os índices de violência sexual aumentam, com alguns estudos a mostrar que mais de 20% das mulheres e raparigas refugiadas irão enfrentar violência sexual. No Afeganistão, espera-se que a guerra e perturbações dos sistemas de saúde conduzam a uma estimativa de 4,8 milhões de gravidezes involuntárias até 2025, o que porá em risco a estabilidade, a paz e a recuperação global do país”, lê-se.

Se tivesse 15 minutos para fugir e deixar a sua casa, “o que levaria consigo? O seu passaporte? Comida? Lembrar-se-ia dos seus contraceptivos?”, questionou a Directora Executiva do UNFPA, Natália Kanem, salientando que “Nos dias, semanas e meses após o início de uma crise, os serviços de saúde sexual e reprodutiva e de protecção salvam vidas, protegem mulheres e raparigas de danos e previnem gravidezes indesejadas. Acções tão vitais como providenciar água, comida e abrigo”.

A responsabilidade de agir

Neste domínio o relatório mostra a facilidade com que os direitos mais fundamentais das mulheres e das raparigas são empurrados para o esquecimento em tempos de paz e no meio da guerra, e faz um apelo aos decisores e aos sistemas de saúde para que deem prioridade à prevenção de gravidezes não intencionais, melhorando a acessibilidade, aceitabilidade, qualidade e variedade da contracepção e expandindo grandemente a qualidade dos cuidados de saúde e a informação de qualidade em saúde sexual e reprodutiva.

O relatório exorta os decisores políticos, líderes comunitários e todos os indivíduos a apoiar o empoderamento de mulheres e raparigas para tomarem decisões afirmativas sobre sexo, contracepção e maternidade e a fomentarem sociedades que reconheçam o seu pleno valor. “Assim, as mulheres e raparigas poderão contribuir plenamente para a sociedade, e terão as ferramentas, informação e poder para fazer esta escolha fundamental – ter ou não ter filhos – para si próprias”.

Vale realçar que, o relatório sobre o Estado da População Mundial é a publicação anual emblemática do UNFPA – uma agência de saúde sexual e reprodutiva das Nações Unidas. Publicado anualmente desde 1978, ilumina as questões emergentes no domínio da saúde sexual e reprodutiva e dos direitos conexos, trazendo-as para o domínio público de forma a explorar os desafios e oportunidades presentes para o desenvolvimento internacional.